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Original text "24" written in SR by Marija Pavlović,
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Dejan Tiago-Stankovic

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Paulo Capinha

Published in edition #2 2019-2023

Diário da Vida

Translated from SR to PT by Ilija Stevanovski
Written in SR by Marija Pavlović

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    22 de dezembro de 2014. Diário da Vida


    A aparência irreal da Praça de Espanha na fotografia impressionava com  magnificência da civilização anterior já despida do seu sentido. Para que é que uma potência colonial necessita de uma praça tão tamanha, concebida para as festividades de outrora, decorada com os nichos pretensiosamente dedicados cada um a uma província espanhola? As carruagens circulavam ao redor da fonte, oferecendo aos turistas uma amostra barata da pompa da nobreza antiga. Pelo menos não se veem os segways por aqui. Um cavalo aproveitou-se do descuido do cocheiro, alforriou-se do jugo que levava e galopou para a liberdade inesperada. Então, o cavalo livre correu para o parque Maria Luísa, deixando atrás de si uma grande confusão, os cliques das câmaras que tentavam capturar a cena pouco habitual e o arco-íris que o sol fazia nas gotículas de água a pairar no ar sobre a fonte no meio da praça. Era uma autêntica Disneylândia para adultos, pacata, irrealmente idílica. Correndo pelo parque, o cavalo passou a magnífica árvore de Ficus macrophylla, que se erguia no meio das palmeiras e da densa vegetação tropical que parecia uma ilustração fantasmagórica dos contos de fadas. Tinha as suas raízes monumentais no ar, como a copa de uma árvore virada de cabeça para baixo. Um pombo esvoaçou duma árvore, sobrevoou as fontes mouriscas e continuou para junto do seu povo reunido em volta duma ilhota povoada pelos patos e cisnes. Depois, ao aterrar, deve ter dito algo ao seu amigo e esse logo levantou o voo, fez um círculo grande em volta de duas pessoas curiosas que por aí andavam e, depois de captar a sua atenção, pousou num ramo da árvore. Então, as duas pessoas deram conta de que havia uma multidão de pombos brancos nessa árvore e passaram pela ponte, observaram toda a cena no mundo das aves, dos patos, e pombos, e continuaram subindo até um coreto elevado, para apreciarem a vista panorâmica do parque desde um ponto mais alto. Ao pé deles passou uma rapariga, de passo apressado, parou ao lado duma cerca que tinha uma abertura em forma de NO8DO, observou a paisagem do parque que se via pela fenda e seguiu em frente. Parou, pasmada, quando viu duas raparigas a dirigirem um carro até à Praça da América gritando de alegria. Ao darem uma volta à praça, depararam-se com uma cena perturbadora: o cavalo morto estendido no chão do Pavilhão Mudéjar, sereníssimo por ter passado os últimos instantes da sua vida como um revolucionário, defensor da liberdade equina.

    Na Praça de Espanha, o Viktor tinha os auriculares do telemóvel e ouvia uma música pop croata, das antigas, Amo-te, que nem um cavalo. Para os propósitos da investigação produziu 24 fichas de cartão com os apontamentos feitos de acordo com o diário da Vida e com os factos que ele próprio tinha descoberto. 
    Decidiu dispor todas as peças do mosaico nos bancos que havia na praça, dentro de umas alcovas com painéis de azulejos pintados com cenas da história das várias regiões espanholas. Assim, acabou de fazer uns minialtares para cada um dos episódios da Vida e aproximava-se a eles com muita reverência, tentando de perceber a sua misteriosa língua. Teve bastante sorte por esta praça, toda espampanante, surreal, não estar cheia de visitantes, enquanto as ruas estreitas do centro da cidade abarrotavam com aqueles que tentavam aproveitar ainda os descontos natalícios. Os guardas foram ter com ele para verificar o que é que estava a fazer. Com muita desconfiança, conseguiu logo convencê-los que não era demente. Tentou prevenir que o vento levasse as fichas de cartolina, para isso trouxe do apartamento uns objetos para servir de pesos. 
    Uma tesoura, uma capa de telemóvel, um suporte para a fita adesiva, uma calculadora encontrada no apartamento, um carregador de telemóvel, uma caneta, um controlo remoto do ar condicionado, uma laranja, um isqueiro do fogão, uma prensa para alho, um isqueiro comum, um disco rígido externo, um livro guia da viagem por Andaluzia, o romance “A peregrinação de Arsenije Njegovan”, uma caixa de aspirina, um ditafone (avariado), um azulejo no qual ficava um sabonete, um íman para o frigorífico (um arabesco com o nome de Granada), as chaves do apartamento em Belgrado, um suporte pequeno de cerâmica para incenso, “ritter sport” chocolate amargo com avelãs inteiras, uma pen drive, um batom e um espelho pequeno. 
    Ele achava necessário recortar a realidade em pedaços, vê-la tal como foi escrita, aparentemente sem nexo e de maneira caótica, e na verdade numa harmonia perfeita com a natureza pseudo romântica da Vida. Saltitava sem sair do sítio, e então corria duma cartolina para outra, tentando encontrar uma linha lógica que ligasse os fragmentos da história da Vida. “Arabesca” do Debussy ressoava de longe, mas ele não a ouvia, porque tinha os auriculares e ouvia a música do seu telemóvel, e na sua cabeça revirava as frases da Vida. Elas penduravam sobre a consciência dele como uma imagem captada nas redes sociais que fica gravada junto com o estímulo visual que a segue. Todas essas vozes, tons, de dentro e de fora, diminuíam enquanto aumentava o ritmo da chamada que recebia, uma forma cada vez mais clara duma canção de guerra. 

    O fragmentador chama
    os filhos das noites maníacas
    O fragmentador range os dentes
    Grita no meio da noite
    O fragmentador é disléxico, 
    As sinapses são suas novas sílabas
    O fragmentador tem tiques
    O fragmentador caça ao tempo

    O fragmentador engole as vírgulas
    O fragmentador é um emoji
    O fragmentador rola as lapalissadas
    O fragmentador fratura os dedos
    O fragmentador gosta de fazer rimas
    Embora não saiba contar
    O fragmentador arrota sempre
    Enquanto o tumor cerebral supura.

O fragmentador inventa alcunhas
    O fragmentador até nem existe
    O fragmentador gosta dos freaks
O fragmentador é My Love Story

Não tenho tempo para poesia agora! Não tenho! Ralhava ele, consigo próprio, sem entender porque é que o tempo lhe escapa sempre. O que é tempo bem gasto? Foi esse tempo que procurava até agora ou foi utilizado da maneira correta?
    O que não estava claro era o motivo da sua entrada na suposta associação. Será que eram espiões ou agentes de um serviço secreto? Será que eram conhecidos da nossa polícia? Ou eram apenas turistas malucos, ávidos da excitação sem falta do sentido? É permitido meter-se com agentes das organizações estrangeiras? Será que o companheiro iria chamar a polícia se realmente fosse assim? É um absurdo, estou a ser paranoico. 
    O masculino e o feminino, “A mão de ouro”, o penteado, Tenerife, Marrocos, quem vai amarrar as pontas soltas ali?
    Sentiu uma necessidade súbita de penetração, repentina, como um pensamento anti-stress. Não de dar, só de levar. Não se lembrava se já antes alguma vez pensou no pegging, mas de repente sentiu uma necessidade indescritível de uma mulher penetrá-lo. O masculino e o feminino.
    Enviou uma mensagem ao dono do clube de ursos perguntando onde é que podia encontrar um clube dominatrix na cidade, por causa da investigação, claro. 
    Até à tarde pesquisava no google como é que devia preparar-se, para depois, banho tomado, tripa lavada, ir para o lugar combinado. 
    Pediu à garota que respondesse ao nome de Vida. Enquanto ela mexia em volta dele, no calor da excitação ele disse-lhe:
    “Tú eres mi Vida”.
    “Basta de hablar. Ahora Vida te va a follar”, respondeu ela.


18


    23 de dezembro de 2014. Diário da Vida


    Sob a Ponte dos Anéis passavam as pessoas em caiaques e desapareciam no horizonte sevilhano adornado com o crepúsculo. Na relva doutro lado do rio as pessoas que gostam de aproveitar todos os minutos do sol ficavam deitados e faziam exercício. Um homem estava num barco com uma urna, um gato e uma bolsa patchwork. Ele quis jogar as cinzas da sua defunta esposa Soledad no rio Guadalquivir, mas considerava que o calor de Sevilha não é uma morada eterna apropriada para os restos da sua companheira de vida, desde que enviuvou, sombria e escura. Decidiu então ir embora e jogar as cinzas da sua esposa no lago Baical.
    Independentemente deles, 24 ciclistas andavam através da ponte procurando as velas do Advento apagadas. 

    Não pode esperar, tem de ser produtivo. Com mochila às costas, 24 chamadas perdidas e dezenas de mensagens, notificações e emails não lidos, girogirava por Sevilha com uma missão meio clara. Perguntava às pessoas por barbearias onde poderia cortar o cabelo e fazer a barba, tinha a barba crescida, estava desgrenhado, com roupa que perdeu cor de tanto uso, pelas possibilidades limitadas que uma mala de viagens pode oferecer. Ia de um bairro para o outro tentando sondar o terreno, mas a maioria das pessoas que perguntava diziam que os barbeiros não trabalhavam, que era a hora da sesta, que estavam a vir os feriados, que iam chamar a polícia. Confortou-se, assim, com a associação secreta dos barbeiros que governam o mundo, desesperado, com esta desconfiança dos locais a alimentar-lhe as recém-adquiridas ideias paranoicas. 
    Doía-lhe o cu, o próprio ânus lhe doía desde a noite anterior e cada vez que se sentava, lembrava-se da experiência de ontem à noite. Por isso não fazia muitas pausas,  corria mais pela cidade. 
      Foi na Praça Macarena que o cansaço o venceu. Lembrou-se desse êxito terrível da década de 90 e sentou-se a descansar. O sol brilhava diretamente nos seus olhos, e por isso tinha de fechá-los e absorver a fonte regalada de vitamina D. Quando abriu os olhos, num ato de clarividência viu a morte e a Los del Rio a jogar xadrez na praça. O Bergman, meu Deus, o que é que esse outdoor está a fazer cá? Espera, isso é um outdoor? Ele viu uma imagem em movimento, não como um material publicitário estático, e de repente tudo na praça silenciou-se, e ele ficou sozinho com esta cena que era um pedaço a branco e preto numa paisagem a cores. A morte ganhava e começava a sua dança macabra, mas este já não era tão poético, a morte dançava a Macarena com aqueles que levava embora.

Now don't you worry about my boyfriend
The boy who's name is Vitorino
I don't want him, couldn't stand him
He was no good so I
Now come on what was I supposed to do
He was out of town and his two friends were so fine 
Come find me, my name is Macarena
Always at the party con las chicas que estan buenas
Come join me, dance with me 
And all you fellas chat along with me

      No êxtase orgiástico da melodia trash as pessoas dançavam a Macarena sem parar, sem fim, repetindo os versos e a coreografia sempre de novo, dando voltas e apontando movimentos desengonçados para diferentes pontos cardeais. Não podiam deixar em paz o coitado do Bergman? Era necessário sujar a sua memória dum modo tão banal? Circularam-no devagarinho, apertando o círculo de dança ao redor dele. Por acaso, há alguma coisa sagrada para vocês? Viktor apertou a sua mochila, abriu-a procurando a tesoura e tentava, com os movimentos bruscos, enxotar essa miragem, depois tentava  cortar com a tesoura esse quadro a branco e preto, como se fosse uma tela. Nas tentativas desengonçadas de esfaquear o seu oponente invisível, esfaqueava-se a si mesmo nas coxas, inconsciente da dor e das manchas que se estendiam persistentemente, silenciosas como uma metástase pela que caminhavam os pregoeiros mudos da chama. 

Porquê é que o som está tão aumentado ao máximo? Que tipo de trash é este? Não é trash, isto é o metatrash. Não, isto é o hipertrash! O REALISMO HIPERTRASH, no qual todas as intertextualidades estão esmagadas numa superestrutura gigante que se levanta como um arranha-céu hiper realista. Dentro dela estão esmagadas todas as realidades deste mundo, os mitos de todas as civilizações, as fantasias dos patentes, as ideias futuristas, os versos da Marina Tucaković, as extensões de unhas, os teleshop, os aparelhos “kirby”, os vídeos de músicas da MTV, os fatos camp, os hábitos pagãos, ateísmo e as cruzes gregas, os aparelhos bang & olufsen e os patinhos de plástico, todas as merdas deste mundo em promoção, as atrações turísticas, o smog, as plataformas petrolíferas, as supernovas e as frases das sitcom americanos. Tudo se comprime, se amarrota e se estende como um chiclete nesta superestrutura, tudo vibra, desde o filme neorrealista romeno até o viral pen pineapple apple pen. Tudo está a mastigar-se e a vomitar entre si, a revolver e a escorrer nos “pantones”, a paleta da entropia de carga emotiva. Tu também estás esmagado nessa estrutura, e fazes algumas pequenas cercas quando teres sorte, dentro das quais isolas traços da mistura homogénea, os seus micro universos nos quais a realidade é uniforme, criada de acordo com o teu gosto. Até os meios de comunicação não te enfiam o pão e lembram-te que tu também és parte do realismo hipertrash, não importa quanto te escondas atrás dessa cerca pequena do conteúdo filtrado no Facebook Homepage, do AdSense e dum círculo dos amigos com interesses parecidos. Ninguém é inocente nos tempos do realismo hipertrash, ninguém é consistentemente nítido, todos estão manchados e todos contribuem à catástrofe ecológica que impõe essa superestrutura ao “Habitat” do Safdie, enquanto está a supurar entre os seus cubos bem pensados.

      Sentou-se num banco e começou a chorar, agarrando forte a tesoura nas suas mãos. Quando o seu corpo esfriou, e os canalículos lacrimais secaram-se, trazendo-lhe paz, ele percebeu que tudo isto é uma consequência do cansaço e da depressão pós-sexual. Ontem à noite definitivamente tinha perdido virgindade, pela segunda vez. 
      Completamente calmo, já não conseguia ignorar o que era óbvio. Tinha de desinfetar as suas feridas de alguma maneira. Cambaleou até à casa e verteu uma garrafa da vodka num dos panos limpos da cozinha. Passava as feridas com ele. Ardia-lhe. 
      O Fragmentador grita. O Fragmentador está tenso. O sossego vem. 
      Pegou em papel higiénico e envolveu-o ao redor das suas coxas nos lugares das facadas. O papel foi de qualidade, capaz de aguentar isso. Colou-o com a fita adesiva transversalmente para o apertar. Bebeu um pouco de vodka para acalmar. As calças de ganga estão ok, essas rasgadas estão na moda mesmo assim. Continuemos.

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