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Original text "Hiša v Hajfi" written in SL by Andraž Rožman,
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Mentor

Annabela Rita e Maria João Nobre

Editor

Paulo Capinha

Published in edition #2 2019-2023

Alguns meses mais tarde

Translated from SL to PT by Barbara Jursic
Written in SL by Andraž Rožman

12 de agosto 

«Mohamad, daqui a meia hora, esteja perto do telefone. Acho que a encontrei!»

Salto da cama num empurrão, visto-me abstraído o mais rápido possível e saio da pensão. Rápido. Como se fosse diferente chegar a casa cinco minutos mais cedo ou mais tarde. Quase corro, descendo a ladeira na direção do porto, ali entre o bairro judeu de Hardara Carmel e o outrora palestiniano de Wadi Salib. Porém, ouço a serra que provavelmente corta o ferro e as galinhas e os galos. Incrível. O cheiro a fazenda no meio da cidade que quer apagar a sua história e ser moderna. Como se regressasse ao ano 1948, em que Hagana cercara nesta colina os habitantes palestinianos, disparara sobre eles, destruíra as suas casas e provocara a sua fuga forçada na direção do mar. As pessoas esperavam no cais para embarcar, zarpar na direção de Aka, do outro lado da baía, e continuar o caminho para o Líbano e a Síria. Entre os refugiados, havia também o pai do Mohamad, Suleiman, a sua mãe Samera, o avô Daud, a avó Bagdad, a tia Labiba... No dia vinte e dois de abril de 1948, não lhes passava pela cabeça que nunca mais iriam pisar esta terra. Não sabiam que os seus filhos e netos nunca chegariam a ver Haifa.

A encosta do Monte Carmelo é muito íngreme. Por duas escadas implacáveis para baixo e através de duas estradas com semáforos recentíssimos, chego sem fôlego à rua Wadi Salib. Estou à procura da porta número 16. Quando, há alguns minutos, a irmã do Mohamad me informou de que tinha encontrado um documento amarelado de Daud com esse endereço, estava convencido de que já vira aquela casa. Errei. Ali está o número 17 e os outros números. E um jardim com palmeiras, com erva acabada de cortar e um terraço. Ali está um local onde estão a construir casas e, ao fundo, um monstro – um prédio de não sei quantos andares, todo em vidro, que parece uma nave espacial gigantesca com um pico pontiagudo. Ali está uma mesquita. E ali, ao pé do mar, estão flamingos vermelhos e brancos. Só falta o número 16. Contudo, uma dessas casas tem de ser a correta. Surgem-me várias perguntas.

A casa terá sido demolida? Depois de nakba, os sionistas dividiram a rua como o fizeram com o cemitério próximo, e talvez a casa agora tenha outro endereço. Teriam somente mudado os números das casas?

Dirijo-me para o bairro vizinho, Wadi Nisnas. Atualmente, mora nele a maioria da população palestiniana. Tenho de ligar para o Mohamad. Preferia não o fazer. Pergunto-me se me precipitei ao contar-lhe sobre a casa. Devia aguardar para me certificar e não me deixar levar pela euforia, dando-lhe informação só meio verificada. 

«Desculpa, ainda não consegui encontrá-la. Mas estou quase. Agora sei a rua onde se encontra. Refiro-me a algumas casas, talvez uma dezena. Uma delas podia ser a tua.»
«Não te preocupes. Deixa só aí o xaile da minha mãe.»
«Assim farei.»

Antes da minha partida, Mohamad levou para o bar Shakira um xaile de algodão. Bem conservado. Verde, cor de vinho, azul e com vários padrões. Queria que deixasse algo que lhe pertencesse em Haifa. Perguntei-lhe qual era a história do xaile. Li na sua cara que o momento não era o adequado para responder. «Conto-te quando regressares.»

Continuo a andar pelo Wadi Nisnas. Chego até aos Jardins de Bahai e tomo a direção Norte. Ando mais um pouco na direção do mar para chegar até Fattoush, até um restaurante com um jardim opulento, comida palestiniana saborosa e o café com cardamomo. 

Sentado a uma das mesas de madeira, espero pelo ativista palestiniano Jafar Farah. Não sou o primeiro a chegar a Haifa à procura de casa. Um homem de cabelo volumoso e bigode espesso sabe a quem dirigir-se quando se trata de perguntas como estas. Enumera pessoas a quem eu deveria ligar.  

Leva-me até ao carro dele. Escrevo no GPS Wadi Salib Street 16. O aparelho encontra o endereço e leva-nos pela parte leste ao longo do porto na direção da rua que já conheço. Estou convencido de que só falta um passo até à descoberta. Aproximamo-nos do número 16. Uma voz de mulher anuncia: «o destino está à sua direita». Olho para a direita. Mas só vejo um jardim. Aquele jardim com palmeiras, um terraço e uma relva quase inglesa. Estaria a casa situada nesse lugar, tendo sido depois destruída? Talvez. Contudo, prefiro confiar mais nos peritos do que na navegação. Planeio encontrar-me com alguns deles.  

13 de agosto 
Ligo para as pessoas que me foram indicadas por Jafar. Walid Karkabe mostra bastante interesse pela história. Tem acesso aos arquivos. Promete-me verificar nos mapas antigos. Recebo também informações novas da irmã de Mohamad. No documento que ela descobriu, talvez não esteja escrita a morada da casa de família, mas o da barbearia de Daud. É o que concluo depois da conversa com ela. Não sei, sobretudo, se me quero convencer a mim mesmo de que ainda existe esperança, ou se a explicação pode ser interpretada dessa maneira. Só posso resolver o problema vendo o documento. Ela vai enviá-lo para mim. Só tenho de aguardar um pouco. 

As informações cansam-me. Refugio-me no Fattoush onde há húmus e labne. A minha cabeça está pesada, pesados estão os braços e as pernas. Já não me quero mexer. Porque cheguei até aqui? Mohamad fez um desenho da casa, do bairro e da rua Wadi Salib, da barbearia do avô, da bondosa judia Rahel... E agora, eu vou destruir as suas ilusões. Tal como os sionistas destruíram as casas palestinianas. Ele disse-me que tinha de imaginar a liberdade para poder sobreviver. E eu vou dar cabo da sua ideia. É pior perder a casa ou a ilusão? É melhor conhecer a verdade ou acreditar? Mohamad não é crente, eu também não o sou. Então, a resposta é evidente. Mas a verdade é mais difícil do que a fé.


14 de agosto
Walid liga-me. «O número 16 já não existe.» Atualmente, estão a construir ali 180 apartamentos, no canteiro ao pé do jardim. Manda-me o mapa no qual está marcado o lugar onde ficava a casa. Tenho uma prova. Ela já não está lá. Só não sei se já não existe nem a casa, nem a barbearia. Contudo, sei que ao lado da casa havia uma escadaria que ia pela encosta do Monte Carmelo. E que, ao lado da barbearia, havia um bar – Radio Café. Tenho de ligar a Mohamad. 
 
«Espero que não estejas dececionado.»
«Fico feliz.»
«Feliz?»
«Pois. Porque a minha voz está agora na Palestina.»
«A tua voz?»
«Sim. Agora, quando estou a conversar contigo, a minha voz propaga-se do auscultador para Haifa.»

16 de agosto

Tenho um encontro com Majid Khamra, que escreveu um livro sobre a história de Haifa. Leva-me até ao canteiro. «Aqui, não houve barbearia», diz convincente. Faz-me um sinal com a mão para o seguir. Fazemos algumas dezenas de metros na direção sudeste e atravessamos a estrada. Descemos pela rua Omar el-Khatab, viramos à esquerda. Passamos pelos prédios onde se encontra agora o mercado das pulgas e onde antigamente havia lojas palestinianas. Vemos o minarete e, atrás dele, o monstro de vidro. Umas dezenas de metros mais a frente, Majid para e vira à esquerda. «A barbearia estava aqui.» Aponta com a mão para umas portas térreas, com persianas de alumínio, no canto de uma casa de dois andares, de pedra árabe. «Há alguns anos, ainda estava escrito por cima da porta Al Itihad, Unidade.» Esse era, provavelmente, o nome da barbearia de Daud. «Aqui ao lado, estava o Radio Café.» 

Acho que tenho a reposta. A casa era ali, onde atualmente estão a crescer os apartamentos e a barbearia ainda não foi demolida. Estou tão feliz que gostava de abraçar Majid. A casa já não existe, mas a barbearia sim e tenho uma reposta. O caminho não foi em vão.  

A última prova. Recebo o correio eletrónico da irmã de Mohamad. Ela descobriu um documento do ano 1943, no qual está escrito que a morada de Daud era na rua Wadi Salib 16. Agora, é certo. A casa já não existe. O prédio em que se encontrava a barbearia, sim. 

Espero que anoiteça, e a Wadi Salib e as ruas vizinhas fiquem vazias. Pego no saco com o xaile. Desço novamente duas escadarias e atravesso duas estradas equipadas com semáforos modernos. Dou a volta ao jardim, acompanhado do cheiro a cidreira e a alecrim. Passando pelas oliveiras e as palmeiras, chego até ao canteiro. 

Não posso deixar o xaile neste betão. Continuo na direção das casas otomanas. Escolho uma escada com arco no fundo e uma casa ao lado dela. Meio demolida, sem teto, mas com arcos bonitos ao redor das portas e um lugar que podia servir como pátio. Demoro-me. Não tenho pressa. Examino o saco com o xaile. Desejo que a história do xaile continue. Viajou da Síria à Eslovénia, e agora está no Oriente próximo, ali onde os pais de Mohamad cresceram. Talvez alguém o encontre, use, ofereça. Talvez aguarde nesse lugar até que a casa seja demolida e seja levado, no meio das pedras, para o lixo. Ou um dos trabalhadores o aviste a tempo e o leve para a sua mulher ou filha. De qualquer forma, o objeto da família ficará junto às raízes de Mohamad, ali, onde ele não pode estar. 

Regresso ao canteiro. Tento imaginar como viveu Daud. Ao amanhecer, beijou Bagdad, Labiba e Suleiman, fechou a porta da rua Wadi Salib 16 e partiu para o trabalho. Quando saiu para a rua, passou a vizinha Rahel. Sorriram um ao outro e combinaram rapidamente quando é que Rahel poderia tomar conta de Suleiman. Olho na direção do mar, para uns cem metros de distância, onde estava antigamente amarrado o barco de Daud. Tenho a impressão de seguir os seus passos quando, pela rua Omar el-Khatabi, me aproximo da barbearia. Antes de levantar a persiana da porta, foi para o Radio Café, tomar um café com cardamomo. Depois, preparou o salão de barbearia para os clientes e, enquanto o fazia, discutia com os donos das lojas vizinhas eventos da atualidade. De que falavam a 20 de abril de 1948? Saberiam já que, um ou dois dias depois, iriam ser expulsos da cidade? Como conseguiram escapar da violência de Hagana? Com crianças e toda a bagagem.

Caminho na direção Oeste, subindo ligeiramente a rua que antigamente se chamava Stanton Street. Chego a um prédio elíptico de quatro andares, um dos prédios palestinianos mais bem conservados, maiores e mais conhecidos da cidade. Stanton Street 83. Onde Daud costumava ir à consulta do doutor Kemal. Fico a olhar o cemitério, a alguns metros do consultório médico. Vejo as lápides derrubadas, as tumbas abandonadas, a erva brotando selvagem e a estrada que dividiu o cemitério em duas partes. Aqui, seriam enterrados Daud e Bagdad, Suleiman e Labiba. Regresso pela parte superior do cemitério, na direção da barbearia, da mesquita. Dou a volta que Daud dava todos os dias. 

Dirijo-me também a uma palmeira. Escolho uma no jardim, perto do canteiro, e beijo-a. Faço como me pediu Mohamad.

«Cumprimentos de Suleiman. E de Daud. Mohamad. Samera. Bagdad. Labiba...»


1 de setembro
Mohamad cobre a parte inferior da cara com a mão e, em silêncio, fixa o computador. Olha como eu estava na escada em Haifa e deitei o xaile para a casa abandonada. 

«Estás bem?» pergunto.
Continua em silêncio. 
«O que dirias?»
Afasta a mão da boca. O seu rosto ilumina-se.
«Agora gostava de estar com a minha mãe.»
Fomos para a varanda fumar um cigarro.

«Dei-te o xaile da minha mãe para o levares para Haifa. Eram os meus genes. E ali há uma casa nova. A antiga já não existe. Passo a passo, tudo acaba. Fim. Quando vi como deitaste o xaile para a casa, quis esticar o braço e apanhá-lo.»

Pouso sobre a mesinha o sabão de azeite, um saquinho de cardamomo moído de Nablus e uma tábua de madeira com uma citação de Darviš que comprei em Ramala.

«Mahmud Darviš dizia que a pátria era memória. Concordas?» 
«A resposta está no livro O Perfume, de Patrick Süskind. A memória é o cheiro. Ao misturar aquilo que temos na mesa, nasce um cheiro novo, uma memória nova. Lembro-me do cheiro do xaile da mãe.»
«Ainda te lembras de como a mãe te deu o xaile?»
«Quando ela morreu, agarrei na mão dela ainda quente. Levava o xaile ao pescoço. Peguei nele e fui-me embora. Não chorei.»
Guardou-o no armário. E, de vez em quando, enrolava-o em redor do seu pescoço, na Síria, na Eslovénia e durante a viagem. Quando as noites, durante o período de espera pelo asilo, em Liubliana, estavam lúgubres e tinha a sensação de que o mundo se fechava em seu redor, usava-o como cobertor.
«No toque, a textura do xaile parece a pele da mãe. Estou a ficar contente.»
«Mas, já não tens o xaile.»
«Ah… O que importa é ele ter saído da Síria. Não quero que as minhas memórias fiquem perto de Asad.»


Agora, o xaile está na Palestina. Na vivência de Mohamad, a Palestina já não é o que foi. «Durante a guerra, a minha memória ficou danificada. As cidades destruídas, as pessoas mortas. Agora, a minha memória é esta. A Síria. Antes, era a Palestina. Esta memória foi-me transmitida pelo meu pai e ao meu pai, pelo pai dele. Conheço Alepo como a palma da mão. Esta é a minha memória atual.»

Na verdade, não tem só uma memória, mas três. «Tenho três pátrias, três povos e três memórias. Às vezes, ficam todas entrelaçadas, outras vezes não. Acontece uma viver com mais intensidade do que as outras duas. Quando estavas na Palestina, essa parte da memória ganhou vida. O meu sentimento estava contigo. Tu estavas lá, eu aqui. Uma loucura.»

Quando falamos da memória, não podemos evitar aquela que ainda não temos. 
«Sabes, escrevi sobre ti», continuou Mohamad.
«A sério?»
«Escrevi que eras uma ave. Sentaste-te num avião, levantaste voo e voltaste.»
«Tu não podes voar.»
«Voar. Quero voar. Aonde queira. Talvez voltasse, talvez não. Mas quero experimentar.»
«Não sabes onde preferias ficar?»
«Não posso predizer o futuro. Contudo, sei uma coisa. Se for para a Palestina, quero voltar o mais rapidamente possível. Se for para a Síria, ainda não sei. Não sei.»

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